domingo, julho 27, 2008

Um poema anônimo


Minha vida é mero entretecer
entre o Senhor e eu;
As cores que ele mescla sem cessar
Deus mesmo escolheu.

Tantas vezes penas ele insere,
e eu, sem o orgulho depor,
esqueço que ele vê o lado de cima
e eu, o inferior.

Enquanto o tear não se calar, e
as lançadeiras não deixarem de voar,
Deus não irá desenrolar a tela e
as minhas dúvidas explicar.

Os fios escuros são tão necessários
nas hábeis mãos do tecelão
quanto os fios de prata e ouro
que ele colocou no padrão.

Anônimo

Do livro Encontrando a Peça Perdida, de Lee Ezell

Um poema de Carol Wimmer


QUANDO EU DIGO

Quando digo... "Sou cristão"
Não estou gritando "que sou salvo"
Mas sussurrando que "era um perdido"
Que escolheu o Caminho.

Quando digo... " Sou cristão"
Não falo isso por orgulho
Estou confessando que tropeço
E preciso de meu Guia.

Quando digo... " Sou cristão"
Não estou querendo ser forte
Mas professando que sou fraco
Pedindo forças para prosseguir.

Quando digo... "Sou cristão"
Não estou jactando-me do êxito
Estou admitindo que sou falho
E não posso pagar minha dívida.

Quando digo... "Sou cristão"
Eu sei que não sou perfeito
Minhas falhas são visíveis
Mas Deus confia que mereço.

Quando digo... "Sou cristão"
Eu ainda sinto dores
São minhas cotas de angústias
Porque busco ao Senhor.

Quando digo... "Sou cristão"
Eu não quero ser juiz
Pois não tenho autoridade
Eu só sei que sou amado.

Tradução de João Cruzué, in www.olharcristao.blogspot.com

Um poema de Vítor Carvalho Ferolla (V. Carlos)


Sim?

Pobre, fraco, nu.
Sim! Cheio e vazio...
Forte e também fraco.
Cego e inacabado.

E enquanto olhar
No fundo do ser.
Em mim encontrarei
Muito medo e sofrer.

Um temor falto,
Falto em amor.
Falto na graça,
Falto no perdão.

Mas na Cruz vitória eu vejo!
Sim! Agora vejo o que não via.
Que Deus Pai me ama muito ainda.
E que em mim o Santo Espírito reina.

Reina, pois o Reino de Deus
Está dentro de nós (cristãos?)
Cristãos! Seguidores do Caminho,
Servos e adotados como filhos.

E o Filho do Deus Vivo
Não é apenas exemplo.
Ele é Deus e é Vida.
– em verdade, e em verdade Ele é a Verdade –

D'Ele flui humildade
E também unção, poder.
N'Ele existe compaixão
E também sentido, razão.

Visite a página do autor: http://amandoaoproximo.blogspot.com

terça-feira, julho 22, 2008

Dois poemas do Pr. Lindolfo Weingärtner


Prece pelo Espírito

O vento sopra onde quer –
Não o conseguirás forçar.
Mas quando o vento vier,
Deverás as velas içar!

Há barcos em alto mar
Que se encontram de prontidão.
Quando a brisa se levantar,
Ao destino navegarão.

E barcos há que, ó Deus,
Não esperam mais navegar.
Recolheram os mastros seus –
Nada querem, senão flutuar.

Vigia, põe-te a clamar
Do lugar de guarda e visão!
- O mastro deveis levantar!
Na deriva não há salvação!

Ó ventania de Deus –
Nossas velas vem inflar!
Com poder irrompe dos céus!
Nós estamos a vigiar!


Prece por certeza

Senhor, segurança buscamos
Em um mundo inseguro e hostil.
Planejamos a nossa vida,
Usando de engenho e ardil.

Buscamos conforto no ouro,
Lutamos por posse e poder.
Mil coisas amontoamos,
Tentando a cobiça esconder.

E quando afinal julgamos
Que o alvo se encontra à mão,
A morte faz o balanço –
E eis que foi tudo em vão!

De mãos vazias rogamos,
Em incerteza e temor:
Sê tu nossa segurança –
Eis que tudo soltamos, Senhor!

Por tua mão nos segura!
Teus filhos ensina a andar
Com passos certos e firmes!
Ensina a servir e a lutar!

Pelo testemunho interno
De espírito dá-nos vigor!
Ó dá-nos nova certeza
Por tua palavra, Senhor!

Do livro Vigia, põe-te a clamar (Editora Sinodal, 1975)

quinta-feira, julho 17, 2008

Dois poemas do Pr. Jean Douglas Gonçalves


Tal profeta, tal poeta!

“Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.”
(Fernando Pessoa)


“Tu me seduziste, Iahweh, e eu me deixei seduzir,
Tu te tornaste forte demais para mim, tu me dominaste.”
(Jeremias, o profeta)


O profeta também é poeta,
Não tem grandes pretensões,
Procura sossego, mas se incomoda com o silêncio!
Não almeja grandes coisas, nem aspira um alto monte,
Sua alma, quieta, apegada à simplicidade,
Canta a canção da humildade,
De quem não buscou, mas alguém o encontrou!
O poeta também é profeta,
Faz da sua voz um anúncio,
Tantas vezes uma denúncia,
Na candura anuncia,
Na bravura, mas com alma de criança,
Denuncia ao que vive abastança,
Que alguém morre por falta de esperança!
E qual poeta não quer ser profeta,
E qual profeta não se arrisca a poeta,
E entre palavras, uma poesia,
Das mesmas palavras, uma profecia!
Mas o poeta tem medo de ser profeta,
E o profeta teme não alcançar o poeta,
Mas quando no íntimo recosta,
E na alma se pergunta,
Encontra uma imbatível resposta:
Ser profeta é ser poeta,
E qual poeta não é profeta.
Entre profecias e poesias,
Mais rica faz a vida,
Mais bela a lida,
Mais santa a batalha,
Mais linda a vista...
E por mais que o profeta tem em si um poeta,
E o poeta um desejo de profeta,
Há profeta e há poeta...
Um é poeta, outro profeta,
Um se anuncia ao se esconder nas palavras,
E o outro se esconde quando anuncia a Palavra,
Tal profeta, tal poeta!


Confissão

Minhas mãos são desajeitadas,
Parecem-me grandes, às vezes pequenas,
Parecem-me fortes, às vezes fracas,
Parecem-me firmes, mas são trêmulas.
Minhas mãos são desajeitadas
Para tocar um cristal sem quebrá-lo,
É um sentimento de inadequação,
Uma sensação estranha de inaptidão,
Como se pisasse solo sagrado,
Com pés calçados,
Ou um espinheiro,
Com pés descalços;
Aqui está a raridade, a beleza,
A santidade, a verdade,
Revelando minha trivialidade, banalidade,
E quase insanidade de pensar em adequá-lo!
Como adequar tamanha grandeza?
Se minhas palavras são pequenas, confusas, incertas,
Finitas, irreverentes...
Que tarefa inglória,
Sinto o grito profético:
Ai de mim, estou perdido... e os meus olhos viram o Rei!
Entendo o clamor apostólico:
Miserável, homem que sou!
Parcialidade, incapacidade e nulidade são as únicas siglas
Que me ocorrem,
Sinto arder meu peito,
Sinto tremerem meus lábios,
Sinto até tentar,
Mas desistir...
Mas o que de fato sinto?
Sinto muito...
Sinto querer e não poder,
Querer e não dever,
Sinto tentar, mas fracassar,
Afinal, o Amor é sagrado, para ser profanado,
Por mim, pecador!

domingo, julho 13, 2008

Um poema de Mário Barreto França - ÚLTIMO COMBATE


Último Combate

- “O combate será a uma hora da tarde!”
Foi a voz que se ouviu, como horrível alarde,
Ao longo da trincheira... E o dia era tão lindo!...

- Como é belo morrer quando se vai sorrindo
Para a luta cruel, numa manhã como esta,
Toda cheia de luz, toda cheia de festa!...

(Era um belo rapaz que me falava.)

- Escuta,
(Perguntei-lhe) não tens receio desta luta?
Ele não respondeu, porém, sentidamente,
Cantou ao violão uma canção pungente...
E me disse, depois, com olhos rasos dágua:
- Não! Eu não temo a morte! O que me causa mágoa
É me sentir tão longe, é me ver tão sozinho
E não voltar jamais ao calor do meu ninho,
Onde, entre beijos bons de minha doce esposa,
Meu filhinho me espera, e, esperando, repousa...
Quando eu vim para cá, beijando-me, ele disse
Uma frase qualquer, uma linda tolice...
Mas, depois, enxugando uma lagrimazinha,
Deu-me um livro, dizendo: “É uma lembrança minha,
Papai! Quando o senhor estiver em perigo,
Leia este livro, ouviu?! Jesus é nosso amigo!
E o senhor não será mais sozinho nem triste,
Porquanto onde Ele está tudo o que é bom existe!”
E ele continuou a cantar. Que tristeza
Começava a pesar em toda a natureza!...
E eu fiquei a invejar sua alma comovida,
Porque era triste só no deserto da vida...

A chuva começara a cair lenta e fina...
Como interrogação fatídica, a colina
Mostrou-se ao nosso olhar, cheio de nostalgia,
Perversamente verde e tristemente fria.
... ... ... ... ... ... ... ...

A luta começou terrível. A metralha
Ia levando a morte ao campo de batalha.
Gritos, imprecações e vozes de comando
Juntavam-se no espaço escuro e formidando...

Pungente agonizar de uma tarde cinzenta,
Tarde que quis ser linda e que foi tão cruenta!...

Quando a noite caiu, negra e fria, tornou-se
Mais bárbaro o combate. Era como se fosse
Rude destruição de uma cidade antiga
Pelo ódio figadal da vingança inimiga.

Quando a manhã raiou, o combate findara,
Mas era horrível ver tudo o que se passara...
Espraiei meu olhar pelo campo assolado,
E o pranto me feriu o coração magoado:
É que aquele soldado, inda tão moço e alheio
A essas contradições do Destino, encontrei-o,
Ensangüentado, assim, de bruços na trincheira,
Prendendo ao coração, numa ânsia derradeira,
Da esposa e do filhinho, um retrato cinzento,
Colado à capa azul de um Novo Testamento.


Do livro Primícias da minha Seara

quarta-feira, julho 09, 2008

Dois poemas de Teônia Soares


SOU...

Sou...
Sou uma serva do Deus vivo,
Sou um sonho desse Deus em quem acredito,
Sou a força nEle, dEle, quando penso que disisto...
Sou mais uma história dEle, com final traçado na Eternidade...
Sou Sua Criança, apesar da minha idade,
Sou a carência saciada no afago de Suas Mãos,
Sou Seu braço forte apesar do meu frágil coração,
Sou um sorriso caloroso, em meio à lágrima
Escondida no desgosto.
Sou a satisfação incontida em ver as bênçãos
Derramadas em mim e em meus irmãos,
Sou a que vive para Deus,
Vivendo de sua provisão, vou escrevendo,
Trazendo novas canções...
No falar, a sinceridade do correto,
No agir, a simplicidade ao fazer o certo,
Na oração, o pedido do Teu Perdão,
No agradecer, a alegria da Tua Misericórdia
Renovada na doce manhã cantada em Salmos de gratidão...


QUEM

Quem sou eu?
Sou um sonho
Um conto
E um canto.

Quanto sonho
Quanto conto
Quanto canto
A sonhar
A contar
A cantar
Se só sonho
Se só conto
Se só canto
Nada faço
Viro só um conto
De um canto
Que nunca se cantou...
Mas...
Se sonho e realizo
Assim vivo
Se conto e vivo
Assim sou conto lido
Se canto e alegro
Sou canto cantado,
E assim sigo...

Hoje sou ser que sonha vivendo
Sou ser que vive sonhando
Sou conto pra todo ouvido
Contado e bem vivido
Sou cantante cantador
Canto o riso e canto a dor
Canto tudo com um propósito
De mostrar quem é meu Senhor!


Visite a página da autora: http://mpoesia.zip.net

sexta-feira, julho 04, 2008

Dois poemas de Assis Cabral


À Porta

Não ouves? Eis que alguém te bate manso à porta,
Teu hóspede quer ser, vem te pedir pousada.
Alguém que vem de longa e extensa caminhada.
Alguém que vem dos céus e o mundo não suporta.

Bate. Quer avivar tua alma semi-morta,
Afastada de Deus, nas trevas extraviada.
Quer salvar-te, pois tem como missão sagrada
Restaurar o perdido. O custo? Que isso importa?

Esse alguém é Jesus, o Filho do Deus Vivo,
Que executou no mundo o plano redentivo,
Pra te livrar do inferno e outorgar-te perdão.

Bate. Não vens abrir? A mão do teu Jesus,
A mão que foi ferida em vergonhosa cruz,
É a mão que bate à porta do teu coração.


Bartimeu

Há treva misteriosa e densa escuridão.
Penúria. Mendicância. A vida é de infeliz.
À beira de uma estrada, a sorte não maldiz
O paciente judeu, sem casa e sem visão.

Mais eis que surge ao longe a grande multidão.
Vozerio. Tropel. E então alguém lhe diz:
É Jesus que aí vem, pra te fazer feliz,
O Cristo de Israel. O Deus da salvação.

Mestre, tem compaixão de mim, quero enxergar,
Tu tens todo o poder, não ouso duvidar,
Abre-me a vista, então, para que eu veja a luz.

E logo Bartimeu contempla, ao derredor
Da bela Jericó, as campinas em flor
E, sobretudo, vê o rosto de Jesus.


Do livro Álamos no Deserto (JUERP, 1972)
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