sábado, dezembro 31, 2011

Dois poemas de António Jesus Batalha




ANDA COMIGO


Anda comigo, vou falar de Esperança
Da vida que ainda agora principia,
Perde essa amarga e vã desconfiança
Toma a minha mão de amigo, e confia.


Anda comigo, eu sei das tuas dores
Sou mais poeta sendo teu irmão.
Nesta densa floresta cravada de flores,
O trabalho e o suor são o mesmo pão.


Anda comigo além na clareira,
Há uma fonte para matar a sede,
A água é pura, livre não se mede.
E corre de graça para quem a queira.




CAMINHADA


Homem chamado sem nada saber,
Leva cajado perante Faraó,
Ele e o irmão os dois vão só,
Deixa ir o povo onde Deus quer.


Cajado na mão o rio abriu,
Pedra rasgada água a correr,
Chuva caída para comer,
Monte a tremer parece de frio.


Nada impede do povo seguir,
Conhecem caminho para ir,
Caminhantes sempre erraram.


A ira de Deus sobre os consumiu,
Todo o desobediente no deserto caiu,
Na terra prometida só dois entraram.


Visite o blog do autor: http://antoniobatalhaverdadeempoesia.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 29, 2011

SUBIDA, novo livro do poeta Rui Miguel Duarte



Neste mês de dezembro deu-se o lançamento, em terras portuguesas, de Subida, o segundo livro de poesias do bardo lusitano Rui Miguel Duarte.

O livro saiu pela Edium Editores, e pode ser adquirido AQUI (para condições de envio para o Brasil, consulte o autor).

segunda-feira, dezembro 26, 2011

O ANO QUE CHEGA, poema de Mário Barreto França



O ANO QUE CHEGA

Mais um ano que chega e outro que passa,
Num misto de ventura e de saudade;
Suplica-se do céu divina graça
E o gozo de servir ao peito invade...

De joelhos em terra, a humanidade espera
Do derradeiro instante do ANO VELHO,
Há sempre confissões, na mais sincera
Vontade de viver para o evangelho...

E quando, ao som de um cântico sagrado,
Saúda-se o raia de um ANO NOVO,
Sobe a Deus, penitente do pecado
E em místico louvor, a alma do povo

Essa ingênua alegria das crianças
Enfeita o coração da gente pobre,
Que fica colorido de esperanças
E de bondade se ilumina e cobre.

ANO VELHO que vais, boa viagem!
ANO NOVO que chegas,sê bem-vindo,
Para encher a alma humana de coragem,
Para o mundo tornar mais justo e lindo!


domingo, dezembro 25, 2011

NATAL, poema de Natanael Santos




Natal


Envolto em Glória
Sob a aureola da eternidade
Embalado pelas asas
Da sabedoria,
Antes que houvesse mundo,
O Verbo pré - existia.


O tempo traga as eras...


O Supremo Criador
Anuncia a chegada
Da semente da mulher.


Os céus são invadidos
De solene expectativa!


Na Terra,
Profetas se inspiram
E, ao longo dos séculos
Vaticinam a chegada
Do “Desejado das Nações”.


Chega a plenitude dos tempos...


Anjos cantam
Saudando a chegada
Do pequeno infante
Na manjedoura
De Belém.


Poderosos depõe suas armas
Ante o Deus – menino
Magos vindos do Oriente
Se prostram em adoração.


Diluem-se as trevas,
Fogem as sombras da morte
Raia a luz!


Nasce Onipotente
Num mundo inconsciente
Nasce à sombra da cruz
Nasce humilde de uma virgem
Nasce o menino Jesus.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Saudade e Esperança: as “marias das dores”




Rubem Amorese 
Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina! Eis o grito dos teus atalaias! Eles erguem a voz, juntamente exultam; porque com seus próprios olhos distintamente vêem o retorno do SENHOR a Sião. Rompei em júbilo, exultai à uma, ó ruínas de Jerusalém; porque o SENHOR consolou o seu povo, remiu a Jerusalém. O SENHOR desnudou o seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus —Isaías 52:7-9.
Meditar sobre a esperança do Advento requer pensar sobre passado, presente e futuro: sobre como, no presente, nos relacionamos com o passado e com o futuro. Para entender esses olhares, basta perguntar: advento de quê? — advento de Jesus, do cumprimento das promessas, realização da esperança, do consolo de Israel.
Por que “consolo”? Por causa das dores de perdas de coisas ou pessoas queridas.

As “marias das dores”

O que é, o que é: duas “marias das dores”; duas “dores boas” e essenciais; duas mulheres amadas; uma idosa e outra jovem; são mãe e filha; são tão amadas quanto “das dores”; só são “das dores” porque são amadas.
Dores amadas? Quem ama a dor? Existe dor amável? Sim, tão dolorida será quanto mais amada for.
Adivinhou? Essas marias das dores se chamam Saudade (a mãe) e Esperança (a filha). Para falar da filha preciso falar da mãe.
A dor que elas trazem é a dor da ausência. A saudade traz a dor da ausência do bem-querer que já não é, porque se foi; aquilo que amávamos e que já não temos mais. Na esperança há a dor da ausência do bem-querer que ainda não é, porque se espera.
É interessante que gostemos delas, mesmo sendo “das dores”, porque só existem em função da ausência de algo querido; da dor de não ter mais ou de ainda não ter.  Nas palavras de Fernando Pessoa:
Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Saudade e esperança só existem porque “precisamos” lembrar e esperar; são dores essenciais porque não há ser normal que não goste dessas marias, e que não sinta suas dores. Cecília Meireles fala sobre esse sentimento (grifos meus):
De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
Repara as tônicas: saudades, lembranças, felicidades, esperanças. Se pudéssemos mandar embora a saudade, por meio do esquecimento, ficaríamos sem o bem-querer que ela traz; se me livro da esperança, por meio da desistência, resta-me o amargo do absinto na boca. Quando Jeremias fala da morte da esperança ele diz assim:
“Fartou-me de amarguras, saciou-me de absinto” – Lm 3:15.

Elas se confundem — e nos confundem

Muitas vezes chamamos a esperança de saudade, e Jó também:
Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim – Jó 19:25-27.
Fiz uma música, num dia de nostalgia, que batizei de Saudade de Casa. Está lá no site da IPP. Um instrumental, pois nunca consegui verbalizar esse sentimento. Eu queria falar da saudade de uma casa em que nunca estive; talvez, saudade do céu: um bem-querer realizado no futuro, ao qual me apego com… saudade (que também é esperança).
É por isso que estamos falando de mãe e filha, a diferença está no tempo: é uma ausência no passado (saudade) ou no futuro (esperança).
E como doem, essas duas marias! Mas gostamos, de certo modo; como as dores do bem-querer do passado, que chamamos de saudade. Como diria Pablo Neruda:
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
De fato, talvez não queiramos nos livrar dessas dores porque, “ruim com elas, pior sem elas”. De volta ao Pablo Neruda:
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
Ou então, nas palavras de Florbela Espanca:
…Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria.
Não existiu morte para o que nunca nasceu…
Sim, não há saudade de algo que não foi, um dia, bem-querer.

Advento: o noivo presente

No Advento, iniciou-se a consumação da saudade e da esperança. Não se tem saudade nem esperança do que está presente. E “já não havia choro”, diz o Apocalipse, porque as lágrimas da ausência haviam sido enxugadas. Pela fé tudo se faz presente; passado e futuro; tudo é “plenitude dos tempos”. A fé nos dá acesso imediato ao que se espera e ao que se não vê (Hb 11:1), às ausências passadas, presentes e futuras.
E temos convicção dessas coisas, como se as víssemos  (veja em nosso texto de Isaías: “porque com seus próprios olhos distintamente vêem o retorno do Senhor”); como se estivessem presentes; e nessa convicção, nessa certeza, há consolo real, pois o que já não era e o que ainda não era tornam-se presentes.
É por isso que o Advento “consuma” tanto a saudade quanto a esperança. Lembremo-nos do velho Simeão, ao pegar o menino no colo:
Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lc 2:29,30).
Quando os nossos olhos enxergam, naquele menino, a “tua salvação”, a saudade se vai e a esperança é consumada.

Consolação: não chores mais, Maria

Pela fé não precisamos mais esquecer das saudades ou desistir da esperança. Pela fé nós fazemos uma viagem “google earth” até aquele presépio, e vemos ali nossa consolação. É assim que entramos no descanso de Deus. E vivenciamos, pela fé, em nossa vida de dores de “ausências”, (que Paulo chama de “momentâneas tribulações”), a alegria da “presença plena”.
Nesse momento, as lágrimas já não fazem sentido, pois agora “o noivo está presente”. O bem-querer que se foi e o bem-querer que esperamos se fazem presentes e isso se torna motivo de festa: a esperança do grande banquete messiânico.
Assim, pela fé, nos alegramos, hoje, com um dia em que diremos em nossos corações: eis que tudo é muito bom. E será o sétimo dia. E descansaremos. Para sempre.
Jesus proveu os símbolos pelos quais celebraríamos a saudade e a esperança. Ao tomar a Ceia, fazemos uma espécie de “hora da saudade”, até que ele volte. E Jesus nos diz: “façam isso em memória de mim”. Tradução: “não se esqueçam de mim e não desistam de me esperar”. E nós, ao celebrarmos essa saudade, esse bem-querer perdido, enchemos nossas lâmpadas de óleo, para que não se apaguem antes da vinda do Noivo.
Hora da saudade e hora da esperança, pois afirmamos que ele voltará. Então seremos consolados, definitivamente, da dor que sua ausência nos causa. E das dores de tantas outras ausências queridas em nossas vidas.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

NOITE DE NATAL, poema de Edgar Silva Santos




NOITE DE NATAL!


Nesta noite de natal
quero trazer à lembrança
aquela noite especial
em que a terra se encheu
de rútilos fragores...
Quero mostrar-te um cenário
que foi maior do que
qualquer homem
jamais pôde construir,
no perpassar dos anos,
no escoar da vida.


Fecha os olhos de tua alma
para recuar no tempo
e sentir a calma
e afagar docemente
a tez iluminada do infante Jesus...


Que não te incomode o brilho
de tanta luz...
É que Deus desceu para tornar
aquela noite clara,
como também a noite
que mergulhou os homens
nas trevas dos séculos.
Não hesites em auscultar
toda a grandeza dessa hora.
Vem sem demora...
Entoa com os anjos
aquelas canções gloriosas
e abre a vista de teu coração
ao espetáculo faustoso
que envolveu toda a terra...


Não te esqueças
que naquela noite terra e céu
se fizeram o trono
do Rei-Salvador,
nascido na humilde manjedoura de Belém.
E foi para o teu próprio bem
para o bem de todos nós,
Foi para que jamais fôssemos os mesmos
e não perecêssemos jamais,
Pois refulgiu para sempre
aquela NOITE DE PAZ!....


Do livro “Entre a Terra e o Céu”
Pr. Edgar Silva Santos (ed.santos2009@bol.com.br)

terça-feira, dezembro 20, 2011

Prece de Natal - Ivone Boechat


Imagens Cristãs de uso livre

Prece de Natal


Senhor,
não permite
que as crianças peçam esmolas
neste Natal!
Enxugue a lágrima da mãe,
cujo filho não voltou,
sara as dores do mal,
sensibilize aquele que até agora
não voltou.


Senhor,
que os homens entendam
o significado da estrebaria
como símbolo de humildade,
amor, comunhão.


Senhor,
ouve as orações,
purifica as nossas almas
para que a
mensagem dos anjos
domine os corações.
Amém.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Natal: Dois poemas de J.T.Parreira




O NÃO TER SENHOR COMEÇADO UMA RUA


O não ter havido Senhor para ti
lugar na cidade, nas mãos
que deveriam ungir-te, até
lugar na voz que prometera
do fundo dos dias cantar-te


O não ter havido Senhor uma porta
uma casa cheia para receber-te
um espaço entre os peitos
de todas as mães, um olhar
onde morasses com ternura


O não ter Senhor começado uma rua
à espera do teu Nome
nem ainda hoje quando passas
Senhor no rosto de um homem
ou uma mulher feliz por te acolher.




QUE CRIANÇA REGRESSA AGORA


Que criança regressa agora
a Belém para nascer? Hoje,
há um avião que bate
nos arcanos do tempo,
um carro de combate que regula
a pontaria onde começa o homem, uma casa
fechada atrás de sulcos
na parede, há novelos farpados de arame
para enredar os pés, e as estrelas
procuram-se com olhos cabisbaixos.


Hoje que criança transgride
o recolher obrigatório?
E vem nascer em Belém
num leito onde deitam a boca
os animais
e o silêncio das línguas?


Visite o blog do autor: http://papeisnagaveta.blogspot.com/

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Manjedoura, poema de Rui Miguel Duarte



MANJEDOURA

“Nasceu-lhe então o menino, que era o seu primeiro filho. Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não conseguirem arranjar lugar na casa.” (Lucas 2,10 versão A Bíblia para todos, p. 2047)

Não havia uma bacia de água
onde a jovem parturiente
amaciasse os pés
crespos da caminhada


Não havia leito
onde alongasse as pernas
das horas moldadas
ao dorso do jumento


Não havia travesseiro
em que desatasse a dor
jugulada do parto


Não havia linho fino
para cingir os membros tenros
do primeiro filho
Não havia o anteparo
de um berço de ouro


Apenas havia umas faixas
uma tiras de pano de saco rasgadas
apenas sobrava uma manjedoura
para hospedar a noite de feno
do pequeno corpo amarantino


Num estábulo
na ponta mais longe da estrada
aí onde os animais
consolam as bocas
foi disposto o pão vivo do céu


in http://liricoletivo.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 08, 2011

O NATAL DE JESUS - Jonathas Braga


O NATAL DE JESUS

Tudo isso aconteceu para que se cumprisse
o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta. Mat 1.22

Quando o sol irrompeu nos cimos azulados
e deu vida e calor às árvores e aos prados,
e os pássaros, trinando, a alvorada anunciaram
e a luz triunfal do dia entre ovações saudaram,
dir-se-ia a natureza em festa esplendorosa
no radiante fulgor da manhã cor-de-rosa.

Quem fosse até Belém naquele instante, certo,
deixando atrás de si a poeira do deserto,
havia de sentir um gozo estranho e ingente,
uma alegria nova, imensa, surpreendente,
porque, na expectação do mundo estarrecido,
nascera, finalmente, o Cristo prometido.

Os homens a buscá-lO o seu nome exaltavam
e, cheios de ventura, uns aos outros falavam,
enquanto pelos céus divina melodia
de cantos imortais os páramos enchia.

Mas, eterno desígnio, a pequenina criança,
que era do mundo inteiro a mais bela esperança,
nascera, humildemente, em pobre estrebaria,
porque nenhum lugar na estalagem havia
e agora, ao maternal regaço reclinada,
mostrava à luz do dia a face mui rosada.

A doce mãe, feliz na sua fé ardente,
olhava para o filho enternecidamente,
não sonhando sequer o drama extraordinário
de que seria palco o monte do Calvário!...

Mas havia de ser assim...
                                              Estava escrito
nas páginas de luz do Livro do infinito
e um dia, sobre o lenho infame do madeiro
Ele seria exposto assim, como o Cordeiro,
para que se cumprisse a divinal vontade
e fosse redimida e salva a humanidade.

E por isso as canções que os pássaros entoavam
e os lampejos do sol que os campos redouravam
festejavam, também, nessa alvorada loura,
o Salvador nascido em pobre manjedoura!

in O Caminho da Cruz (JUERP, 1962)

domingo, dezembro 04, 2011

Mário Barreto França - Natal Eterno



NATAL ETERNO

Na manjedoura – de olhos serenos
e riso franco para os pequenos
que o foram ver –
revela aos povos o Deus-Menino
toda a grandeza do amor divino
que o fez nascer.

Diante de um quadro tão meigo e belo,
todo o Universo fez-se singelo
para exaltar
essa promessa que se cumpria
no humilde berço da Estrebaria:
Deus se encarnar...

Magos, pastores, pobres, ricaços,
todos apressam, sorrindo, os passos
para depor,
aos pés humildes de uma criança,
a doce oferta de uma esperança
no eterno Amor.

O céu se enfeita de luz e de ouro
e as harmonias de anjos em coro
prometem paz
à terra cheia de desengano,
cujas pelejas, ano após ano,
não findam mais...

Noite de festa, sagrada e boa,
mostras ainda a cada pessoa
que faz o bem
a luz excelsa daquela estrela
que, para o povo segui-la e vê-la,
foi a Belém.

Mulheres e homens do mundo inteiro,
vinde, acendamos esse luzeiro
espiritual
nos pinheirinhos das nossas vidas,
para ofertá-las a Cristo, unidas,
no seu Natal.

Porque, nas voltas do calendário,
surge o presépio, surge o Calvário
erguendo a cruz,
nesse convite à boa vontade
do amor fecundo da humanidade:
- “Vinde a Jesus” –

in O Louvor dos Humildes (1953)

quinta-feira, dezembro 01, 2011

GRANDE CANTATA DE NATAL, poema de Gióia Júnior




GRANDE CANTATA DE NATAL


Cantarei o Natal,
mas o Natal-acontecimento,
o Natal exato,
realidade confortadora e simples,
o Natal sem sonhos.


Não o Natal de Papai Noel,
de São Nicolau,
do trenó sobre a neve,
do buraco da fechadura,
da chaminé delgada e escura,
do farnel de brinquedos...
Não!


Esse, positivamente, não é o Natal,
esse é um Natal de mentira,
inventado por alguém sem imaginação.
Não e Não!
Postiço e falso é o natal dos brinquedos:
da árvore de bolas amarelas, verdes,
vermelhas, azuis, prateadas, douradas,
espelhando rostos alegres,
alongando e diminuindo feições sorridentes,
natal dos sapatinhos sob a cama,
dos olhos marotos do menino rico,
dos olhos parados do menino pobre.
Natal dos brinquedos:
a bola de futebol novinha e cheirando a couro,
a boneca de porcelana
que fecha os olhos e tem vestidos ricos,
o aeromodelo, elegante e leve,
quebrando os copos da cristaleira,
os bibelôs do quarto,
aterrissando nas panelas da cozinha:
“Menino, vá para o quintal!”


Natal dos embrulhos que guardam mistérios,
embrulhos de sonhos, de risos, de vida,
natal dos olhos curiosos.
A árvore verde
tem loucas vertigens e visões fantásticas:
veste de algodão
e debruns e estrelas
e lâmpadas coloridas,
que riem o risinho do pisca-pisca:
“apagou... acendeu... apagou... acendeu...”
Não! esse, na verdade, não é o Natal!


... E o presépio animado
do trenzinho correndo nos trilhos sinuosos:
“entrou no túnel comprido,
saiu da ponte, desceu a serra;
um operário malha a bigorna
ritmadamente;
os animais movem a cabeça.”
Não! Esse não é o Natal!


... E a mesa farta:
leitões assados com rodelas de limão
sobre o corpo tostadinho,
o peru recheado,
de peito aureolado em farofa cor de ouro,
os frangos,
as frutas, as passas,
as ameixas pretas,
as tâmaras morenas,
avelãs, nozes, castanhas...
bebidas, bebidas, bebidas
escorrendo, gotejando, geladas, loiras, espumantes.
Não! Esse é o natal-glutoneria!


Natal injusto é esse,
que divide castas
e separa classes
e alegra os ricos
e esmaga os pobres...
Maldito seja o natal que os homens inventaram
para que a mãe pobre o celebrasse chorando,
resistindo aos apelos:
- “Eu quero uma boneca!”
e às perguntas:
- “Papai Noel não vem?”
e às queixas:
- “Eu tenho fome! EU TENHO FOME!”


Maldito seja o natal-privilégio dos ricos,
que se mostram generosos
e distribuem migalhas aos pobres,
para comprar, com esse gesto, um terreno no céu:
um belo terreno de esquina,
com muitos metros quadrados,
em avenida principal.
Já disse e repito:
maldito seja esse falso natal,
esse mesquinho natal,
esse corrompido natal!


... E o natal-cumprimento:
telegramas urbanos,
parabéns, felicitações,
carta aérea, leve e curta,
bilhete escrito às pressas,
frase oca e vazia
bordada num cartão postal?
- Esse é o natal-hipocrisia
e está longe de ser o perfeito Natal!
Natal é muito mais:
é visão, esperança, certeza, humildade,
pastores, madrugada, estrebaria,
e José e Jesus e Maria,
e bondade
e alegria!


Cantarei o Natal!
“Dormem no campo os pastores,
os que tangem rebanhos sonhando.
Dormi, pastores, que a noite é um lírio
perfumado e eterno, branco e silencioso,
dormi como justos,
como crianças travessas,
um sono leve e escuro, macio e indevassável,
deixai que a terra úmida
aconchegue vossos corpos.


Despertareis em sonhos,
despertos sonhareis a visão almejada.
Abrem-se os céus como sulcos oceânicos
e embriagadora música emoldura a paisagem;
despertam figuras,
são anjos de largas e leves e rosadas asas,
brancas e celestes asas de pássaros gigantescos.
Despertai, homens do povo!
Humildes pastores das campinas verdes, despertai!
Anjos inquietos, suaves e claros
cantam em coro
o que ouvidos humanos jamais ouvirão...
escutai,pastores!
e guardai o cântico!


Guardai-o, para que se não dilua,
guardai-o, para que ainda o ouçamos
e dele falemos pelos séculos dos séculos. Amém.


Glória a Deus nas alturas!
Glória
a Deus nas alturas!
Repitam os campos e os astros e as sombras
e a noite, nas trevas que se movem vagarosas,
e a terra, quente, laboriosa e humana:
Glória a Deus nas alturas!
E as muitas águas,
e as pedras escuras, lascadas, fendidas,
suspensas no abismo como gesto atrevido,
e as folhas verdes bailando e sorrindo
como dedos de criança
e o capim cheiroso que as ovelhas comem
e as sinuosas vertentes transparentes e ágeis,
repeti o coro que os anjos ensinam:
Glória a Deus nas alturas
e Paz na terra aos homens de boa vontade!


Paz na terra!
Apesar das bombas e dos acordos diplomáticos,
apesar do nevoeiro denso
que esconde navios compridos, cinzentos e armados,
apesar do ronco dos aviões a jato,
dos estampidos supersônicos,
dos campos de concentração
onde os velhos mordiscam a morte
e os moços já não existem,
apesar das bandeiras,
das muitas bandeiras nervosas e bailarinas,
das inquietas bandeiras de asas mutiladas,
apesar da vingança e da conquista,
dos aleijados, dos órfãos, das viúvas,
apesar dos cadáveres sem túmulo,
expostos e pisados,
apesar da insânia,
das fronteiras,
do ódio velado, do profundo ódio
dos que foram derrubados mas não se perturbam,
apesar das experiências atômicas,
PAZ na Terra!
Paz na terra aos homens de boa vontade!
Eis o Natal, criaturas,
vinde bebê-lo sem o auxílio de vasilhas e potes de barro
dos muitos países,
vinde bebê-lo com as mãos em concha,
como quem se salva!


Vem de longe os magos:
são silhuetas
que os raios da estrela,
que os fios dourados da Estrela do Oriente
puxam, fazem andar, fazem parar, ensinam...
Vem de longe os magos,
para a fonte da água...


...Ouço vozes longínquas,
vozes ciclópicas abafadas pela distancia,
mas nítidas, definidas, exatas,
são vozes proféticas anunciando o tempo:
Isaías, Jeremias, Davi...
essas vozes completam o Natal,
definem e traduzem o Natal perfeito,
ouço vozes que cantam num coro harmonioso,
não há dissonâncias, nenhuma sequer.


O menino dorme
embalado pela estrela.
José medita,
Maria sorri...
sorri pelos olhos, pela boca, pelo corpo,
acariciada por essa alegria repousante
que é ser mãe.
Os magos estão curvados,
numa atitude obediente;
chegaram de muito longe,
para viver o Natal!
Os pastores cantam, os pássaros deslizam,
não há nada morto,
tudo é vida abundante,
eis o Natal!


Cantarei o Natal!
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens!
Ecoe meu cântico pelas cercanias indevassáveis,
inunde os templos como VENDAVAL impetuoso,
aqueça choupanas de famílias pobres,
alimente pobres,
acenda nos olhos do menino triste
o suave brilho da esperança presente,
alimente pobres com o pão macio,
branco e generoso, perfumado e quente.


Sacuda cidades o meu puro cântico
e destrua planos de vingança e ódio.
Proclame o saltério,
respondam as cordas, confirmem os arcos,
com maviosas vozes, doces, sussurrantes,
gritem as trombetas,
chorem as mulheres,
repitam os homens,
cantem as crianças...


O Natal é isto:
um misto de luzes e vidas, um misto
de perdão e calma...
mas calma profunda que nos satisfaz.
O Natal de Cristo
é o cântico eterno da perfeita Paz...
da Paz verdadeira, da paz-humildade,
dessa Paz sincera proclamada aos homens
de boa vontade:


PAZ NA TERRA AOS HOMENS
DE BOA VONTADE!


in 25 Anos de Gióia Júnior (1976 – Editora Betânia)
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