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quinta-feira, agosto 27, 2026

A flor que ficou, um poema de Filipe Souza

 


A flor que ficou

 

Havia uma flor

nascendo onde quase nada florescia.

 

O chão tinha suas marcas,

o vento chegava sem pedir licença

e algumas manhãs

pareciam não prometer coisa alguma.

 

Ainda assim,

ela abria as pétalas.

 

Não porque desconhecesse a dor,

mas porque, de algum modo,

a dor nunca conseguiu ensiná-la

a deixar de ser delicada.

 

Ela podia ter escolhido a dureza.

 

Podia ter criado espinhos

para não se ferir mais.

 

Mas não.

 

Continuou sendo flor.

 

E talvez exista nisso

uma coragem que pouca gente percebe.

 

Porque ser forte

nem sempre é permanecer de pé

sem sentir o peso do vento.

 

Às vezes é sentir tudo

e ainda assim

continuar caminhando.

 

É carregar algumas cicatrizes

sem transformá-las em muros.

 

É não saber exatamente

onde termina a estrada,

mas confiar o próximo passo

a quem conhece o caminho inteiro.

 

Talvez seja assim que Deus trabalha.

 

Quase sempre escondido

nas coisas que ninguém vê.

 

Debaixo da terra,

quando a raiz cresce.

 

No silêncio,

quando o coração aprende a esperar.

 

Na manhã,

quando a luz volta devagar

e encontra alguém

que ainda decidiu permanecer.

 

Talvez ela nem saiba,

mas há beleza

em tudo aquilo que sobreviveu nela.

 

Há beleza na sensibilidade

que não morreu.

 

Na esperança que continuou.

 

Na fé que, mesmo pequena,

aprendeu a respirar

entre uma dúvida e outra.

 

E quando o mundo disser

que é preciso endurecer para continuar,

talvez ela se lembre:

 

algumas das coisas mais fortes

que Deus criou

continuam sendo frágeis.

 

A semente.

 

A água.

 

A luz.

 

E uma flor.

 

Por isso,

se algum dia ela olhar para trás

e pensar que apenas sobreviveu,

 

que alguém lhe diga baixinho:

 

não.

 

Você floresceu.

 

E talvez essa seja

a parte mais bonita da história.

 

Porque a guerra passou.

 

O vento passou.

 

As noites também.

 

E ela ficou.

 

Ainda sensível.

 

Ainda caminhando.

 

Ainda flor.


sexta-feira, maio 22, 2026

Salmo meu de cada dia, um poema de Filipe Souza

 


Salmo meu de cada dia

 

Pai…

 

Não me condenes quando os Teus olhos alcançarem os lugares mais escondidos da minha alma.

Quando o Teu poder sondar pensamentos que ninguém conhece,

feridas que eu escondi atrás de sorrisos,

e pecados que silenciosamente travam guerras dentro de mim…

não me rejeites.

 

Antes, derrama sobre mim a Tua misericórdia.

Escreve os Teus preceitos nas paredes do meu coração,

para que os meus passos não se desviem do Teu caminho,

mesmo quando a minha carne quiser correr para longe da Tua vontade.

 

Pai, há dias em que me sinto forte,

mas também existem noites em que me vejo perdido dentro de mim mesmo.

Noites em que a culpa pesa nos ombros,

em que a consciência grita,

e o coração se torna um lugar escuro demais para permanecer sozinho.

 

Nesses momentos…

que o Teu perdão me encontre.

 

Que a Tua graça me alcance no chão,

quando eu já não tiver forças para levantar os olhos.

Que o Teu amor atravesse os abismos que eu mesmo criei entre nós,

e que a Tua voz seja mais forte do que todas as acusações que tentam me definir.

 

Liberta-me, Pai,

das correntes invisíveis da culpa,

dos pensamentos que me aprisionam,

das lembranças que roubam a minha paz,

e de tudo aquilo que tenta me convencer de que estou longe demais para voltar.

 

Porque eu sei…

Teu amor ainda entra em lugares onde ninguém mais entraria.

Tua misericórdia ainda floresce em terras secas.

E Tua presença ainda restaura aquilo que o pecado tentou destruir.

 

Então segura a minha mão quando eu vacilar.

Permanece comigo quando eu me sentir sozinho.

E ensina-me a caminhar Contigo não apenas nos dias bons,

mas também nos dias em que minha fé estiver cansada e meu coração em silêncio.

 

Que eu nunca me acostume com a Tua presença,

mas também nunca viva distante dela.

 

E se algum dia eu me perder no caminho,

que a Tua voz me encontre de novo…

como um Pai que nunca desistiu do filho que ama.

 

Porque sem ti eu me perco,

Mas em ti eu encontro perdão, direção e paz.



Deus em Meio ao Barulho

 

Tem dias em que eu não oro bonito.

Eu apenas penso alto.

 

Tem dias em que a fé não canta.

Ela só respira,

em silêncio,

entre uma luta e outra.

 

O mundo não desacelera.

As contas chegam.

As pessoas falham.

E eu também.

 

Há dias em que o barulho é tanto

que parece impossível ouvir Deus.

 

Mas existe uma verdade

que o caos nunca conseguiu mudar:

 

Eu não sou maior que Deus.

 

Não sou maior que os Seus planos.

Não sou maior que a Sua vontade.

Não sou maior que a Sua sabedoria.

 

Nem mesmo os meus erros

são maiores que a Sua graça.

 

E, mesmo assim,

Ele não vai embora.

 

Permanece.

 

No meio do caos,

sentado comigo,

no chão da minha pressa,

entre as dúvidas que não sei responder

e os pedaços do que ainda estou tentando entender.

 

Porque a presença de Deus

não depende da minha força.

 

Ela permanece

quando tudo em mim está cansado.

 

E é justamente nos dias

em que tenho menos palavras

que descubro uma verdade preciosa:

 

Que seja Cristo aquilo que fica.

 

Quando dá certo.

Quando não dá.

 

Quando eu consigo.

Quando falho.

 

Que Ele seja minha porção,

meu cálice

e o arrimo da minha sorte.

 

Que seja tudo em mim.

 

E que, quando o futuro chegar,

eu descubra que Ele já estava lá,

me esperando.

 

Em meio ao barulho.

Em meio ao caos.

Em meio a mim.


Acompanhe mais textos e reflexões no Instagram do autor: @ofilipe.souza


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