quinta-feira, outubro 08, 2026

Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos, novo livro de Renato Melo

  

Renato Melo lançou recentemente seu novo livro, Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos.

Andarilho do verso e sua persistência, Renato Melo é um poeta de onde já não se pode tornar atrás: e com isso significa que está lançado com suas todas forças no oceano do verbo, entregue a seu risco e sua sina; alcançou mesmo um status, raro como ave que ronda a extinção, em que esperamos seu próximo livro, com expectativa alegre. Sua poesia, como jaz patente neste Aqueles que cantam, é toda uma psicanálise, uma expedição cartográfica sobre as trilhas da alma e suas bagagens. 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Letramento, AQUI. E você pode conhecer mais do trabalho de Renato em seu perfil no Instagram, AQUI.

Os seguintes versos, extraídos da obra, dão conta de sua fluência:


ENSINE ISSO AOS MENINOS

 

Conhecer as coisas, as garças, as graças

conhecer as riquezas do mundo em côvados

o curso das estrelas

em seu número, peso e ferida.

Será mesmo que a ignorância é uma bênção?

Importa proteger os filhos

das próprias palavras

mostrar o mundo

todos os lamentos

sua melancolia num espelho

e ainda em parto o cheiro da chuva

ao ponto de fazer tremer

as pálpebras dos meninos.

 

Ante os tremores do universo

aqueles que cantam zombam dos relâmpagos,

tal melodia nos enche de confiança.

Bom que seja assim, ensine isso a eles.

Que iluminados resistam a toda maligna intenção

ainda que permitir o milagre

seja algo que doa.



OVELHAS SEM PASTOR

 

Ao som dos sinos anjos cantam hinos de longe.

 

Sob a calma do silêncio

o sumo no húmus de seus olhos constrange

e contagia.

 

Na vastidão, orações bem difíceis

sobem da terra.

 

Imprevisíveis no mundo

são os caminhos de homens que vagam

como ovelhas que não têm Pastor.

 

Desolados, falsos deuses

sucumbem irrelevantes. Multidões berrando

pedindo asas não percebem...

 

Prometeu não existe, nem os demais.

 

Mas há uma Serpente de bronze

no deserto erguida, a cura está em lhe ceder a fronte.

Acreditar é confissão, porém, uma saída que não

se rende a qualquer um.

 

 

SAUDADES DE CASA

 

Desprezo é desencanto — o silêncio

é uma busca. Depois de cair

na face há o espanto

de não saber o quanto custa, ainda

se amar.

 

Os filhos da Queda andam por aí sem travessia,

tecendo nos olhos, torpor — nos sentidos,

sangria.

 

Entre a terra e o entorno, vocábulos.

Nos olhares dos homens — saudades de Casa

em suas línguas, coágulos.

 

As ruas estão cobertas de gente

que sangra por dentro!

 

Desde então, os fracos e os pobres em tormento

tangem caídos ao relento, sua aflição.


EXATIDÃO

 

Por isso falo com Deus, oferto tudo

o senso crítico, rude.

Oferto tudo, ferramentas e talentos

enxada, machado exangue.

Oferto tudo, as flores murchas do jardim

as belas, as bobas, a minha comunhão

sob o sol. Oferto tudo

falo com Deus enquanto frio

perante o rio sob os olhares tensos

desta minha (in)questionável

lucidez.



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