Renato Melo lançou recentemente seu novo livro, Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos.
Andarilho do verso e sua persistência, Renato Melo é um poeta de onde já não se pode tornar atrás: e com isso significa que está lançado com suas todas forças no oceano do verbo, entregue a seu risco e sua sina; alcançou mesmo um status, raro como ave que ronda a extinção, em que esperamos seu próximo livro, com expectativa alegre.
O livro pode ser adquirido no site da Editora Letramento, AQUI. E você pode conhecer mais do trabalho de Renato em seu perfil no Instagram, AQUI.
Os seguintes versos, extraídos da obra, dão conta de sua fluência:
ENSINE ISSO AOS MENINOS
Conhecer as coisas, as garças, as graças
conhecer as riquezas do mundo em côvados
o curso das estrelas
em seu número, peso e ferida.
Será mesmo que a ignorância é uma bênção?
Importa proteger os filhos
das próprias palavras
mostrar o mundo
todos os lamentos
sua melancolia num espelho
e ainda em parto o cheiro da chuva
ao ponto de fazer tremer
as pálpebras dos meninos.
Ante os tremores do universo
aqueles que cantam zombam dos relâmpagos,
tal melodia nos enche de confiança.
Bom que seja assim, ensine isso a eles.
Que iluminados resistam a toda maligna intenção
ainda que permitir o milagre
seja algo que doa.
OVELHAS SEM PASTOR
Ao som dos sinos anjos
cantam hinos de longe.
Sob a calma do silêncio
o sumo no húmus de seus
olhos constrange
e contagia.
Na vastidão, orações bem
difíceis
sobem da terra.
Imprevisíveis no mundo
são os caminhos de homens
que vagam
como ovelhas que não têm
Pastor.
Desolados, falsos deuses
sucumbem irrelevantes.
Multidões berrando
pedindo asas não
percebem...
Prometeu não existe, nem
os demais.
Mas há uma Serpente de
bronze
no deserto erguida, a cura
está em lhe ceder a fronte.
Acreditar é confissão,
porém, uma saída que não
se rende a qualquer um.
SAUDADES DE CASA
Desprezo é desencanto — o
silêncio
é uma busca. Depois de
cair
na face há o espanto
de não saber o quanto
custa, ainda
se amar.
Os filhos da Queda andam
por aí sem travessia,
tecendo nos olhos, torpor
— nos sentidos,
sangria.
Entre a terra e o entorno,
vocábulos.
Nos olhares dos homens —
saudades de Casa
em suas línguas, coágulos.
As ruas estão cobertas de
gente
que sangra por dentro!
Desde então, os fracos e
os pobres em tormento
tangem caídos ao relento,
sua aflição.
EXATIDÃO
Por isso falo com Deus, oferto tudo
o senso crítico, rude.
Oferto tudo, ferramentas e talentos
enxada, machado exangue.
Oferto tudo, as flores murchas do jardim
as belas, as bobas, a minha comunhão
sob o sol. Oferto tudo
falo com Deus enquanto frio
perante o rio sob os olhares tensos
desta minha (in)questionável
lucidez.


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