terça-feira, abril 21, 2026

Três poemas de Josuel Saturnino da Silva

 


Um Mendigo na Porta da Igreja

 

Na porta da igreja, um homem sentado,

Roupas gastas, olhar cansado,

As mãos estendidas, sem alarde,

Pedindo apenas um pouco de tarde.

 

Dentro, hinos, preces e sermão,

Palavras belas, emoção.

Fala-se de amor, compaixão e fé,

Mas ninguém lhe oferece um pão sequer.

 

Passam por ele rostos apressados,

Com trajes finos, olhos fechados.

Talvez orando por paz e bondade,

Mas esquecendo da humanidade.

 

O mendigo ali continua, calado,

Entre o frio e o abandono deixado.

Seu altar é o chão, seu teto o céu,

Sua oração: um olhar ao léu.

 

E Deus, que vê o que os olhos não veem,

Sabe quem passa e quem realmente tem:

Pois não é templo que faz devoção,

Mas o amor vivido em ação.

 

 

O Juiz que mandava no Brasil (cordel)

 

"Num prédio cheio de pompa,

Bem no centro da nação,

Tinha um juiz muito fino,

Cheio de opinião.

Com toga, pose e caneta,

Achava que era o patrão.

 

Dizia com voz de mando:

"Quem manda aqui sou é eu!

Se a lei não me agrada,

Eu mudo do jeito meu!"

E o povo lá embaixo

Só dizia: “Mas que breu!”

 

Mandava calar o Senado,

Mandava no Presidente,

Se achava um semideus,

Dono da lei e da gente.

E com fala engomada,

Fingia ser coerente.

 

Fazia live, entrevista,

Virava até figurinha.

Tinha fã, tinha seguidor,

E até conta verinha.

Enquanto o pobre do povo

Só comia farinha.

 

As leis ele interpretava

Igual profeta sagrado,

Tirava uns da cadeia

E prendia o deputado.

Dizia: “Isso é justiça!”

Mas era tudo arranjado...

 

Um dia o povo acordou,

Com sede de liberdade,

Disse: “Juiz é juiz só,

Não é rei, nem majestade!”

E a voz do sertão subiu

Com força e sinceridade:

 

“Desça já desse seu trono,

Pare de ser mandachuva,

Pois quem manda no país

Não é toga, nem peruca!”

E o juiz ficou sem fala,

Perdeu até a frescura...

 

Desde então aprendeu,

Mesmo sendo doutorzão,

Que o poder que se preza

Vem do povo e da eleição.

Pois Brasil é democracia,

Não palácio de ostentação."

 

 

Quem Removerá a Pedra?

 

Na madrugada ainda escura,

levamos unguentos, levamos ternura.

O peito apertado, a alma em dor,

nos olhos, a lágrima, no coração, amor.

 

Mas no caminho surge a questão:

Quem removerá a pedra do chão?

Tão grande, pesada, impossível mover...

Será que veremos o rosto do Mestre, o amanhecer?

 

Símbolo rude de tudo o que pesa,

da dúvida, do medo, da dor que atravessa.

Pedra que cala, que fecha caminhos,

que esconde esperanças, que deixa sozinhos.

 

Mas mesmo sem ter uma solução,

seguimos em fé, movidos por paixão.

Pois o amor não espera explicação,

ele caminha, confia, crê na ressurreição.

 

E eis que chegamos — surpresa de luz!

A pedra foi posta de lado por Jesus.

Ninguém a moveu, senão o Senhor,

que vence a morte, remove a dor.

 

A pedra caída anuncia vitória,

o início eterno de nova história.

O túmulo aberto proclama poder:

O Cristo vive, e nos faz renascer.

 

Então, se perguntas com medo ou aflição:

“Quem tirará a pedra do meu coração?”

Lembra-te d’Ele — que vive e governa,

e abre caminhos onde a vida se encerra.


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