quarta-feira, agosto 12, 2015

CÂNTICO À IGREJA REFORMADA, poema de Jorge Buarque Lira


CÂNTICO À IGREJA REFORMADA

(Lendo Guerra Junqueiro no seu poema “Aos Simples”, de “A Velhice do Padre Eterno...”)

Seguidores de Cristo – almas santificadas,
“que calcais, sob os pés, do pecado os dragões”,
Vós que inda conservais as palavras sagradas
Do Mestre, que de amor são sempre perfumadas,
Trescalando perfume em vossos corações;
Almas feitas de luz e para a luz surgidas,
Da luz que vem de Deus, ó, almas redimidas,
Que sois, aqui, na terra, a Igreja do Senhor,
A verdadeira Igreja, a pura, imaculada
“Esposa do Cordeiro” – o mais sublime amor;
Almas em que refulge a lâmpada sagrada,
A candidez da fé e o puro amor cristão,
Como na primavera as flores vicejantes,
Como na noite escura os astros n’amplidão;
Almas cheias de vida e luzes coruscantes,
Relicários de fé, de coragem e altruísmo,
De humildade, perdão e vera penitência,
Que refletis a luz do puro Cristianismo,
Que rebrilhais ao sol formoso da consciência;
Almas que resistis, com fé, às tentações
Do mundo enganador, iníquo e condenado,
Erguendo para os céus as santas orações,
Vencendo, em toda a linha, o dragão do pecado; -
Recebei, de bom grado o meu humilde canto,
Em que traduz minh’alma a eterna sinfonia
De vosso amor sincero, e forte, e puro, e santo,
Como a glória do sol em pleno meio-dia!
Sois nume tutelar da divinal vontade
Que sempre procurais fazer em boa mente;
E tudo quanto em vós existe de verdade –
- desde a menor virtude até à santidade –
Vem de Deus e vos leva a Deus eternamente!

Recebei este canto, ó! Igreja Reformada,
Que vai com minha prece a Deus, Nosso Senhor,
Para pedir que seja a vossa fé sagrada
Uma lâmpada sempre acesa, iluminada –
Que ilumine o caminho a todo pecador!
De tempos que vão longe, a vossa linda infância,
Infância que nos trouxe a herança divinal,
A nós nos veio a vossa esplêndida fragrância,
Como na primavera tudo em abundância,
Como na natureza uma aurora boreal!
Bendita sejais vós, ó, santa Igreja amada,
Cumpri vossa missão sublime e alcandorada
Que Deus vos outorgou, e aos vossos tanto ufana,
Pedindo a Deus que mande o auxílio divinal,
Que possa combater, sem tréguas, todo o mal –
E muito mais ainda – a podridão mundana!
Orai por todos nós, orai, ó, almas santas,
Pois vossas orações são de virtudes tantas,
Que Deus vos ouvirá, e muito há de fazer
Em prol da humanidade enferma e sofredora,
Que é toda a humanidade abjeta e pecadora,
Que vive a preferir do pecado o prazer!
O vosso amor sincero, e forte e puro e santo –
Em prol da raça humana e a Deus o consagrai,
Pedindo-lhe nos dê o seu divino manto,
E enxugue de noss’alma o grande e amargo pranto,
E a salvação nos dê, com seu amor de Pai!


Do livro Quando a Musa Canta!... (São Paulo: Casa Lyra Editora, 1947)

sábado, agosto 08, 2015

Dois poemas de Karla Fernandes

Leonid Afremov

pedinchona
Senhor, me faça transparente
pra qualquer má mente 

que queira meu fim
que o inimigo não me note
Senhor, que Tuas mãos estejam prontas

para me livrarem do bote
faça por mim o que não posso fazer
quando dependo de mim

meu fim é perecer
que os meus pés 
deixem Tuas pegadas

que minha alma 
pelo Teu sangue seja lavada

me camufle com amor
quero que vejam em mim

o Teu favor
faça com que eu faça
Tudo o que Tu farias

que fazer Tua vontade 
seja minha maior alegria

me deixe perceber Teu ouvir
saber que quando choro

logo estás Tu a vir
quero saber Tua presença
que minha alma à Tua pertença

e então serei feliz
não me deixe ser má 
não deixe a maldade se ser em mim 

quero ser casa exclusiva Tua
que a maldade se abrigue na rua 
bem longe de daqui

me deixa ver Tua poesia
mostre-se soberano 

mate minha ironia
que Tu estejas em cada letra
que por aventura eu escrever 

correr em Tuas palavras 
saltar em Teus relevos

pra mim Tu és aventura
o viver mais radical

amar o próximo é tão difícil 
que muitos preferem fazer o mal

talvez eu fale pouco
e escreva demais 

é que em mim 
a letra desenhada é o que traz paz

me encontrei em teu livro
ó, como amo Teu livro

nele tu mostras 
como Teu mundo é lindo

creio que o decote em minh'alma 
seja propósito Teu 

talvez alguém tenha que ler 
o que em mim o Senhor escreveu

e assim termino minha oração
pedindo utilidade pra esse ser 

pedindo facilidade para Te pertencer
que a palavra escrita seja clamada
que o clamor possa se escrever

que ao Teu coração
meus versos possam pertencer.


justiça pelo sangue
eles se deram para o cumprimento
com sangue marcaram
a terra e o firmamento
disseram sim ao céu
trocaram a vida por fel
mas foram para o paraíso
clamar por justiça e juízo
aqueles que usaram os punhais
e puxaram os gatilhos
vão implorar por misericórdia
ao reconhecerem que de Deus
mataram os filhos
o sangue dos
que perderam aqui a vida
por amor do que no céu habita
há de clamar estrondosamente por justiça
até o dia em que Deus a fizer
aqueles que tiveram como premissa a fé
e que se deram por acreditar em Cristo
regozijarão em suas almas
pois seus olhos O terão visto.

Visite os blogs da autora: http://www.poesiadoalto.blogspot.com.br/
https://altografia.blogspot.com.br/


sábado, agosto 01, 2015

Lançamento: AMPLITUDE, Revista Cristã de Literatura e Artes




AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas.
      Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/intelectual entre nossos irmãos.
Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf.
      AMPLITUDE, revista cristã de literatura e artes, nasce como um espaço inter ou não-denominacional aberto à criação daqueles que por tanto tempo foram silenciados pela visão oblíqua e deturpada do velho status quo que via nas expressões artísticas algo menor, indigno ou mesmo inútil ao cristão ou à igreja.  Um fórum para os que tem-se visto alienados de veículos de expressão, de formas de publicar/expor/comunicar, de interagir entre pares, e para além dos pares.
      Esta revista nasce com dois anos de atraso, desde a gestação da ideia de uma revista dedicada fundamentalmente à nossa literatura, em conversações com o poeta e escritor lusitano J.T.Parreira. Porém, projetos outros impediram naquele momento a concretização da ideia.
      Como a focalização de nossas lentes recai fundamentalmente sobre a ficção e a poesia, esta edição inaugural chega com força total: são oito contos. Na poesia, contamos com nomes consagrados como o próprio J.T.Parreira, Israel Belo de Azevedo, Joanyr de Oliveira, Gióia Júnior e outros, aliados a novos nomes de excelente produção.
      O anglicano George Herbert, uma das figuras centrais dos assim chamados poetas metafísicos ingleses, inaugura a seção Jardim dos Clássicos. 
  Marcelo Bittencourt apresenta sua história em quadrinhos Pobre Maria, encantando com seu texto e sua arte.
    Na seção de entrevistas, iniciamos com Veronica Brendler, idealizadora do Festival Nacional de Cinema Cristão.
      As artes plásticas são contempladas na seção Galeria, que abre suas portas com a obra de Rafaela Senfft, que também comparece com o artigo A arte moderna e a cosmovisão cristã.
      E vamos aos contos: O saudoso Joanyr de Oliveira, verdadeiro patrono da (boa) literatura evangélica, faz-se presente com o conto A Catequese ou Feliz 1953, onde o autor revisita os porões da ditadura brasileira, inspirado em eventos autobiográficos. J.T.Parreira comparece relatando sobre as crises ontológicas de Pedro, em Os Pronomes; e ainda o fino humor de Judson Canto em Uma mensagem imprópria; um singelo conto de Rosa Jurandir Braz, Você aceita esta Flor?; Célia Costa com o brevíssimo O que poderia ter sido, sobre o que poderia ter sido naquele Jardim de possibilidades; Margarete Solange Moraes com o pungente Filhos da Pobreza; este humilde escriba comparece com um conto de ficção científica, Degelo, ambientado em futuro(s) distópico(s); e Hêzaro Viana, fechando a edição com um forte e terno conto, Por Amor, em 12 páginas de ótima prosa.
      Confira ainda as seções: Notas Culturais, com pequenos flashes sobre o que rola na cena cultural cristã (e fora dela); Hot Spots, abarcando a cada edição citações da obra de um grande autor; Parlatorium, com citações diversas de autores de ontem e de hoje; e Resenhas, abarcando livros, música, cinema et al.

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quarta-feira, julho 29, 2015

Três poemas de Heloísa Helena Zachello

Beaudier

Metamorfoses

 Salmo 40 :15 ao 17
2a. carta de Pedro:2–9

No mundo das massas, eu era um número;
No mundo dos números, uma conta zerada;
No mundo dos zeros, estava à esquerda,
E por esse motivo, eu fui descartada...

E já descartada, eu fui para o lixo;
E dentro do lixo, vivi feito bicho...
No mundo dos bichos, vi mansos e feras;
No mundo dos mansos, eu era ovelha;
No mundo das feras, um homem eu era.

No mundo dos homens, vi os bons e os covardes.
Passei a viver tão vago destino.
No mundo dos bons, só fiz Amizades,
Mas no dos cavardes, fiz meu desatino...

E do que me restou, eu penso agora
Nesta madrugada, já quase aurora:
“Preciso gravar estes versos meus:
Aos olhos dos mundos, não passo de nada,
Mas sou bem-amada aos olhos de DEUS!” 


De quem é a culpa?

( Um abismo chama outro abismo.....  Salmo 42:7)

Era uma vez um menino
a quem nunca faltou nada:
casa, cama, muito mimo,
comida e roupa lavada.
            Saía pra onde queria,
            sem prestar explicação.
            Pudera! Ninguém pedia!
            Não lhe deram educação...
Faltou-lhe ensinamento
do que é básico ao ser humano:
conhecer seu Criador,
Pai de Amor e Soberano.
            E assim ele cresceu,
            como simples animal
            que demarca território
            de forma irracional.
Seu mau gênio era tanto...
Não gostava de vizinho!
Pra família era um santo,
para o resto, um diabinho.
            Os pais sempre o defendiam,
            dando-lhe total proteção.
            E com isso, encobriam
            os erros do fanfarrão.
Se dele se dissesse um “ai”,
perto da mãe ou do pai,
a coisa ficava feia,
ameaçavam cadeia!
            Judiava dos pequenos;
            destilada palavrão;
            não respeitava ao menos
            mulher, homem, ancião...
Suas roupas eram de marca,
seu símbolo, o bady boy;
tênis, só os importados.
Vivia vida de herói.
            Em matéria de escola,
            ia de mal a pior;
            passava às custas de cola,
            e se sentia o maior!
Rebentava as carteiras,
acabava com os giz;
botava a classe inteira
a perder, o infeliz!
  
 Professor, à vista dele,
era um simples cacareco;
Um João Bobo, um Zé Ninguém;
Um palhaço, um boneco.
            Expulsaram-no, certo dia,
            por causa de tudo isso.
            Mas o pai veio a saber,
            e armou um rebuliço!
Apareceu na escola,
xingando só palavrão,
inocentando o filho
de qualquer acusação.
            Pôs culpa nos coleguinhas,
            e taxou o professor
            de incompetente, culpado,
            radical e acusador.
Levou embora o moleque,
que saiu todo emplumado,
sentindo-se poderoso,
pois pelo pai foi poupado.
           Quando aos dezoito anos,
            já sendo um meliante,
           foi pego pela polícia
           num horroroso flagrante.
Contratou-se advogado;
gastou-se muito, à toa,
pois nada deu resultado...
a justiça não perdoa...
            Por não ter sido criado
            como pessoa de fato,
            o moço ficou enjaulado
            igual a um bicho do mato...
Até hoje, o tal menino
que barbado bem ficou,
atribui seu desatino
a quem sempre o estragou...
            O pai nunca admitiu
            que havia sido um fiasco.
            Que acobertando o filho,
             não foi pai, e sim carrasco!
Já a mãe, por sua vez,
não quis assumir sozinha
a culpa, que era dos três,
e esquivou-se depressinha!
            Desde que o homem pecou,
            já vale bem o ditado:
            “quando a coisa é mal feita,
            ninguém quer ser o culpado.”


Bença mãe, bença pai!

    ( Salmo 53 )                

  Bons tempos, aqueles idos
  Em que até filho criado
  Não saía de sua casa
aÇodado, sem ter pedido
  A bênção dos pais queridos.

  Mas, não há mais Fé nos pais...
  Afrouxaram a consciência
  E multiplicaram seus ais...
  !
  Burlaram as LEIS DA VIDA;
  Exaltaram a ciência;
  Não cuidaram do indivíduo;
aÇaimaram sua Crença;
  A família está caída...

  Pulsa de longe a Esperança,
  A única que ainda resta
  Incólume desta matança.
  !
  Darwin mudou o esquema,
  Espalhando heresia.
  Ultrajou a Lei Suprema;
  Semeou sua teoria.

  Trouxe o materialismo,
  Endossando o ateísmo.

  A Escola aderiu;
  Baixou guarda pros ateus;
  E o mundo se dividiu, entre o
  Naturalista e DEUS.
aÇoitaram a Criação;
  Ousaram zombar da Fé;
  E deu no que hoje se vê...

  Fizeram do humano tão pouco...
  Insultaram sua História.
  Levaram a Vida à esmo...
  Hoje, O CRIADOR É O MESMO!
  O macaco, porém, morreu louco...

Visite o blog da autora: http://heloraiz.blogspot.com.br/



domingo, julho 26, 2015

Um poema de Charles Greenaway

John Steuart Curry

SE EU DESISTIR
Se eu desistir
O que ganharei?
Terminará a batalha? Ficarei livre?
Não, nem a porta se fechava, nem a batalha terminava,
Porque Deus teria outro para ficar na brecha
Se eu desistisse.
Se eu desistir,
O que farei?
Procurarei abrigo do calor? Esquecerei o clamor do perdido?
Por um tempo seria feliz, depois descobriria que já não o era
E gastaria o meu tempo orando para fazer algo
E dizendo a Deus, “porque desisti?”
Se eu desistir,
Descobrirei que Deus não desiste.
A batalha ainda rugirá, a Igreja marchará,
O vento soprará ainda, o Espírito continuará a encher,
E eu ficarei cada vez mais longe, meditando,
Perguntando, “Deus, porque desisti?”
Se eu desistir,
Que poderei dizer a Deus
Que me chamou,
ao povo que me enviou,
Ao pagão que confiou em mim para mostrar-lhe o caminho,
Ao Espírito que me anima dia após dia?
Deus, eu não posso desistir.
Se eu desistir,
Que seja quando eu morrer,
E não em vida, nem quando estiver insatisfeito,
Criticado, minimizado, esquecido,
Mas Deus, faz que o meu tempo de desistir
Seja quando eu morrer.

quarta-feira, julho 22, 2015

Trevas, Trovões e Trovas - Novo livro de Júnior Fernandes


O autor Júnior Fernandes acaba de lançar sua nova obra, Trevas, Trovões e Trovas, pela editora Penalux. O livro possui 82 páginas e fina edição. Tivemos o prazer de prefaciar o livro, prefácio que reproduzimos abaixo.

O livro pode ser adquirido no site da editora, AQUI.
Você pode ainda comprá-lo diretamente com o autor, escrevendo para: jrfernandes1000@gmail.com



A secreta tristeza de todo poeta é saber-se um exilado. É este leitmotiv que o fundamenta, e que, em moto contínuo, leva-o ao papel e o elege/condena a “trágico herói do absurdo” tal qual Sísifo. Cordeiro que vaga pela noite, o poeta é um estranho e mais, um estranhamento no ninho. Um furtivo enveredando por dimensões, tateando pelas falhas em suas costuras, em busca de brechas por onde continuar sua marcha de fugitivo e expedicionário. As dimensões são dimensões ou círculos da noite, da humana dor: a noite de dentro, a noite sua; a impenitente noite do mundo; e a noite sartreana, a noite (n)o outro. Um cordeiro-andarilho desgarrado, em busca de um redil, de paz, equalização.

Afinal, independente de sua concepção filosófica ou religiosa, de sua cosmovisão, o poeta é também um pré-ciente da Queda: sua dor exacerbada é o documento a atestar que há algo aprioristicamente errado com o homem; sua busca atávica pela beleza, seu anelo instintivo por redenção é a certeza surda, lacônica de que algo foi perdido, de que um dia expulsos fomos do Jardim.
      
Em Fernandes a angústia do poeta une-se à angústia do filósofo, e sentimento e erudição, fluição e cálculo interpenetram-se, estabelecem em conjunto filtros de percepção, maneiras de ver e de ver-se dentre a noite escura, e de perseguir as linhas de esperança semeadas pelo Cristo.
     
Sim, ele sabe-se um Dâmocles sobre quem paira a espada da morte, a iminência do trágico - trágico de certa forma já realizado na simples latência, na espera, no cansativo spleen baudelariano, esse status da Queda que como um corvo solapa os dias e noites do poeta.
      
Mas a noite não o paralisa. E ele avança, em passos e versos, pelo deserto escuro qual beduíno, intimorato mercador “de tudo aquilo que cabe na caixa de Pandora, no inferno de Dante”. Porém seu avanço não é cego; ele apodera-se de sua dor e caminha em direção à alba, ao alvorecer, a um porto e a um Guia, pois sabe que “quando Cristo morreu, o homem encontrou a possibilidade de se reerguer.” Um homem que, como Lázaro, ao som de um grito, ao som de um trovão rasga as amarrações da noite e desfaz-se da mortalha, rompe com o ilusório, debanda da caverna de Platão, e avança para Aquele que o chama, Aquele que chama.
      

Este Trevas, Trovões e Trovas marca o grato advento de um poeta de esmerada dicção, de um filósofo que, numa noite escura de sua alma, foi banhado pelo clarão transcendente, o mesmerizante fulgor desta espécie de mística maior que é a poesia e o seu exercício. 




sexta-feira, julho 17, 2015

Dois poemas de Gleide Rosalee


Minhas mãos

Contemplo, meu Jesus, as Tuas mãos...
Mãos que abençoaram a multidão;
que se uniram em oração,
alimentaram famintos,
ergueram os que fraquejavam,
as crianças afagaram...
Por fim, foram elas crucificadas por mim!

Bem ao Teu lado,
vejo a mão do meu irmão,
integrante da Igreja perseguida,
com todos os seus dedos
cortados, aviltados, fatiados,
por ter sido, ele, flagrado
em ler a sua Bíblia querida!

Olho, então, para as minhas mãos:
Que têm feito elas, a Teu serviço?
Inteiras, perfeitas, sadias,
ainda bastante fortes,
são elas tão somente usadas
para a Tua honra, para a Tua glória?

Bem sei que não...
Porém, agora, nesta mesma hora,
eu as levanto em adoração,
em entrega total e completa,
sem evasivas, sem reservas.

Tão somente eu Te imploro:
dá-me forças para cumprir
esse meu voto, que em temor
e com muito amor eu faço a Ti!



Ó Terra, Terra, Terra

Ouve a palavra do Senhor”!
Ouçam todos: ricos, pobres;
Ouçam, plebeus; ouçam, “nobres”:
Não tenhais deuses ante mim;
Os meus mandamentos cumpri.
Assim diz o nosso Criador,
Dos exércitos, o Senhor!

Uni-vos, ó nações da terra!
Colori a vossa bandeira
Com a doce alvura da paz,
E o verde que a esperança traz! 
Povos, unidos em elo,
Concordes, clamai em eco:
Jesus Cristo é o Senhor, confessai!
Para a honra, para a glória de Deus Pai!
 
Jr 22.29; Ex 20.3; Is 43.15; 17.7; Sl 24.10;
 Is 8.13; 1Co 15.57; Fp 2.11. 


Fonte: http://www.prazerdapalavra.com.br/

quinta-feira, julho 09, 2015

COMO QUEM IA PARA LONGE, contos de inspiração evangélica em livro de J.T.Parreira


      Este Como quem ia para longe é um livro sobre a Bíblia. Ou, fundamentalmente, sobre seus atores. Sob a pena do poeta, aqui as personagens bíblicas saltam para diante do leitor, vívidas – ganham em tessitura, têm como que expandida sua humanidade. A força da descrição faz a elas irmanarmo-nos de imediato. Caminhamos curiosos junto aos três que avançam para Emaús, no conto que dá nome ao livro. Em O poeta do Salmo exilado, onde o autor revisita um tema caro à sua literatura, o Salmo 137, sentamo-nos ao lado do exilado poeta-ancião que cisma, e suas dores, a existencial e a criativa, são nossas dores. Somos ora o irmão do pródigo filho, ora o cego Bartimeu - ou Pedro debatendo-se em suas contradições; revisitamos o angustioso Judas, de quem o autor, como Giovanni Papini em seu clássico Testemunhas da Paixão, decompõe os passos sombrios.

      Ao longo dos dezenove contos que compõem o livro, o dito e o não dito interpenetram-se, como é de praxe na grande literatura. A eficácia da expressão concisa, do hábil buril que extrai o máximo da palavra, e que o poeta alcança em sua produção poética, temos aqui fidedignamente reproduzida em prosa: contos curtos, que sustentam com segurança e maestria a tensão narrativa, envolvendo o leitor em seu jogo de construção/desconstrução das personagens bíblicas.

      Um pequeno volume de formidável literatura, tão superior a muito do que se vê hoje sendo comercializado nas livrarias, e aqui graciosamente ofertado pelo autor, neste e-book gratuito. Livro que já nasce imprescindível, dentro da infelizmente paupérrima seara da ficção evangélica, em seu gênero conto.

      Por tudo isso, lhe faço o convite, amigo leitor: Sente-se confortável. Apanhe um café ou uma outra bebida de sua predileção. E mergulhe neste conciso e aprazível exercício de arte narrativa.

Sammis Reachers

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