terça-feira, junho 02, 2009

Três poemas de Gerard Manley Hopkins

*
Pablo Picasso

Lanterna externa


Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?

Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.

Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos

Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.
*
Tradução de Augusto de Campos



Tu és de fato justo

Justus quidem tu es, Domine, si disputem tecum: verumtamen justa loquar ad te: Quare via impiorum prosperatur?

Tu és de fato justo, ó Deus, se brigo
Contigo; e é justo, Deus, o que disputo.
Como o ímpio avança, e a frustração é o fruto
De todo empreendimento a que me obrigo?
Fosses o imigo, ó tu, que és meu amigo,
Serias pior, pergunto, mais arguto
Triunfando, baldando? O ébrio e o dissoluto
Mais fazem no ócio que eu, Senhor, que sigo
Por ti. Vê o monte, a mata, que coberta
Densa de rama! Enlaça-a agora o inciso
Cerefólio, olha! e a brisa fresca inquieta-
a; aves constroem -, e eu não, não crio, em crises,
Eunuco do tempo, a arte que desperta.
Me rega, ó Deus de vida, rega as raízes.
*
Tradução de Alípio Correia de Franca Neto



A grandeza de Deus

A grandeza de Deus o mundo inteiro a admira.
Em ouro ou ouropel faísca o seu fulgor;
Grandiosa em cada grão, cada limo em óleo amor-
Tecido. Mas por que não temem sua ira?
Gerações vêm e vão; tudo o que gera, gira
E gora em mercancia; em barro, em borra de labor;
E ao homem mancha o suor, o sujo, a sujeição; sem cor
O solo agora é; nem mais, solado, o pé o sentira.

E ainda assim a natureza não se curva;
Um límpido frescor do ser das coisas vaza;
E quando a última luz o torvo Oeste turva
Ah, a aurora, ao fim da fímbria oriental, abrasa –
Porque o Espírito Santo sobre a curva
Terra com alma ardente abre ah! a asa alva.
*
Tradução de Augusto de Campos

Fonte dos textos e mais poemas do autor AQUI.

Nota do editor: Os leitores que acompanham já de algum tempo este blog, sabem que poucas vezes publicamos textos de autores não-evangélicos. No entanto, quando se faz oportuno, trazemos aqui textos - de caráter cristão - de grandes nomes da Literatura. E com certeza Hopkins é um dos grandes baluartes da poesia de língua inglesa, em todos os tempos.

4 comentários:

Danilo Fernandes disse...

Navegando por ai achei seu blog. Surpresa boa. Adoro poesia! Vou segui-lo a partir de agora. Quando tiver um tempinho, vá visitar meu blog também, o Genizah.

A paz!

Danilo


http://genizah-virtual.blogspot.com/

Sammis Reachers disse...

Obrigado irmão Danilo. Não conhecia seu blog, foi também uma grata surpresa, e já estou seguindo.

Deus lhe abençoe!

Fernando disse...

É curioso ver que num blog chamado "poesia evangêlica" surgem poemas de um sacerdote católico...

Sammis Reachers disse...

É um mestre da literatura, Fernando; eu não poderia me furtar de publicá-lo. Há outros católicos publicados no blog, mas em geral mantenho o ideário de divulgar a literatura estritamente de evangélicos, por não haver quem o faça.

Publico outros mestres num blog mais 'laico', o Mar Ocidental - http://marocidental.blogspot.com

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