quarta-feira, setembro 28, 2011

Dois poemas de Roberto Diamanso




Prosa do poeta leigo


Se prosa é o curso livre do discurso
livre de pretensões, livre da métrica,
escrevo estas minhas, poucas linhas, retas.
Mas se não é o verso, não seja inverso
e dele, ausência completa,
não vulgar, trivial, ou comum,
mas sem grande elevação
de fácil compreensão
aos que se debruçarem sobre ela.
Não sei se é possível a uma prosa
não ser também uma conversa
e dessa temo alguns aspectos,
conotações aos quais nos arremessa,
a saber: “isto é conversa”, “palavreado”,
“bafo” de alguém, que não tem
a menor intenção de cumprir;
segundo Aurélio expressa.


Conversar é versar com
e eu estou só, versando
versando só assim
quiçá serei poeta
mas nem isso me atrevo
dizer que sou profeta,
sejamos pois pastores,
quem quer que ouça
e reconheça a voz
do pastor de todos nós
que amar aos pequeninos
também nos inquieta.
No campo da prosa em nível semântico
encontrei, prático, positivo,
este, baseado em experiências
ou fatos que não admitem dúvidas,
fala consoante a realidade,
aquele, perito experiente,
que por sua capacidade de agir,
pode ir e conduzir
por onde é transitável,
mostrar a rota certa.


Somos “os do Caminho”,
discípulos daquele que disse,
“Eu sou o caminho”
que pouco escreveu,
mas que muito imprimiu,
não em papel e com tinta,
mas nas mentes e corações
daqueles que mais tarde declararam
não vai jamais ninguém nos demover
o que vimos e ouvimos,
não podemos deixar de dizer
para não desvanecer,
é impressão perpétua.


Este é o caminho para não querer,
outro “vem a nós”
se não o ver,
vir a nós o seu reino.
Reino que não é outro, se não
o reino dos pequeninos pois
dos tais é o reino dos céus,
o Mestre disse aos seus
deixem que venham a mim
que ninguém os impeça.


Senta-te para uma prosa
diga-me se és sabedor
trazes viola prangente
sendo tu seu tangedor
de mãos hábeis, mão-tenente
de Jesus o bom pastor
dou-te o texto, vês o ensino?
Em que verso começou?


Cantador
Achei no Livro Sagrado
Mateus dezenove seis
que bom que me deste vez
ser teu co-laborador.
Nesta obra que tanto estimo
vívido a viver este ensino
que antes de haver menino,
macho e fêmea os criou.


Poeta prosador
Sendo assim o que Deus juntou
não é bom que esteja só
ninguém desfaça este nó
daquele que a si nos atou.


Cantador
Sou livre e sem amarras
comprado pra liberdade
mas a minha felicidade
é estar ligado aquela
a quem quando eu disse vamos
de pronto disse vambóra
doravante o que outrora fomos,
não seremos mais.
Nossos corações?
continuam sendo dois,
dois vassalos
levando numa liteira
vida inteira
em função de nós
que não se desatam
estes que demos em nós.
E tu poeta ancião?
Teus cabelos encanecidos
por tantos dias vividos
teria desvanecido,
o prazer da companhia
daquela que amaste um dia?
Tens ainda poesia,
prosa, verso, uma canção?


Poeta prosador
Eu quero me mirar
na água da minha cisterna
mulher da minha mocidade
libido, saudade,
sede da minha gazela.
Obrigado Senhor, pelo meu amor,
o beijo, o doce, os seios dela.
Sentarmos a mesa para comer o grão,
sairmos juntos plantando a semente
cuidar da vida das mudas de gente
que brotam de nós.


E outras mudas de gente,
filhos da alteridade
a soltas pela cidade
onde a orfandade os levou.
Estenda-se nosso cuidado
aos meninos abandonados
correndo riscos diversos
que dos pais estão dispersos
como ovelhas sem pastor.


Quem não se fizer menino
capaz de com eles brincar
e crer no que o Pai promete
não perde por esperar
por não esperar, travesso
se as avessas, tropeço,
se precipita no mar.
Imóvel atado a pedra
ou na barriga de um peixe
se pedir que Deus lhe deixe
se viver, se ele deixar,
quem viver verá mudança.
Quem é este que canta e dança?
Rodeado de crianças
das quais se pôs a cuidar.


Cantador
Pois não, eis-me aqui,
se é pra cuidar de meninos
pode me chamar,
que eu vou.
Sei que tem beira de estrada
pedra que eu levei topada
tem também terra molhada
lavoura toda formada
que eu já vi
pé com botãozinho e flor.
Vamo simbóra
pra nossa roça
cuidar de brotos e mudas
pra quando o amanhã chegar,
florescer e dar frutos bons.


Mas quanto àqueles meninos
com pai vivo
e mãe bulindo
todos ao relento dormindo
carentes do mesmo amor.


Poeta prosador
Vamos levá-los para a casa
o pai, a mãe, o filho, a filha
se temos toda a família
só falta o que lhes faltou.


Cantador
Para o cancionista
o amor é matéria-prima
ainda que não haja rima
e que eu até perca o tom
se não me faltar este dom
sobrosso nenhum restou.


Se o sobrosso é o medo
na linguagem nordestina
e é a Bíblia que ensina
que o amor é caridade
não será temeridade
pois Deus por sua bondade
um dia nos adotou.


Jesus seu Filho Unigênito
que agora é Filho Primeiro
correu risco verdadeiro
até a morte enfrentou.
Nele todo homem é filho
filho que Deus adotou,
nele Deus é filho adotivo de um homem
o qual digo agora o nome
José que Jacó gerou.


Citado no livro Uma Criança Os Guiará (Editora Ultimato, 2010).




Pedra de Amolar



Aquele que comigo,
quando eu choro,chora
Aquele que comigo dança,
A este jamais direi:
Ora,não me amoles
Porque se como o ferro com ferro se afia
Afia o homem a seu amigo
Isto hoje te digo: Podes me amolar!
Ó Deus, dá que quando entre eu e meu amigo
Houver atrito a ponto de sair faísca de fogo
Que eu não me desaponte porque esse tal
É enviado teu pra que eu não fique cego
Porque cego não vê que sem o esmeril
Se perde o fio, o gume
Quem pode perceber, não perde a comunhão,assume
Estende a mão, aceita
A pedra de amolar


Visite o site e o blog do pastor, músico e poeta Roberto Diamanso:
http://www.diamanso.com.br/
http://diamanso.blogspot.com/

Um comentário:

Joselito Nascimento Otílio disse...

Parabéns meu querido sempre e sempre pela excelência dos poemas aqui postado. Neste espaço, só há bênção... Curto demais!

Ah... Porque não visita meus espaço hein...? Ele precisa de ti... Grande abraço e bom Fim de Semana!
www.joselitootilio.blogspot.com

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