sexta-feira, julho 06, 2018

Três poemas de J.T. Parreira


É TERRÍVEL SER O SENHOR
"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós"
Jo. 1,14
É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.


A DÚVIDA
O meu corpo aceita todas as dúvidas, o meu sangue
Que foi um tecido líquido que cobriu as minhas feridas
De novo entre vós com o sinal dos cravos, metei o dedo
No lugar onde os pregos entraram até ao âmago
Dos homens, escutai o meu coração
É um botão da flor do meu amor perfeito por vós
Se vos perdesse, doíam mais as minhas feridas
As dores da cruz são agora a minha maior alegria.



EPÍSTOLA AOS ROMANOS
Miserável homem que eu sou
Paulo de Tarso

Sei coisas terríveis sobre mim, de antes
Da estrada de Damasco, coisas
Que estão dentro da minha memória
E secariam o meu coração, se não fossem
As costas de Deus, atrás das quais tudo cai
No esquecimento
Sei tantas coisas terríveis a meu respeito
A que mais dói
Ter fechado os ouvidos ao último silêncio
De Estevão, quando as pedras sujavam
O seu sangue dolorido.

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